Nevoeiro da Amazônia revela vida invisível e pode ajudar na regeneração da floresta
Pesquisa inédita com cientistas de sete países comprova que o nevoeiro amazônico carrega microrganismos vivos capazes de se reproduzir. A descoberta indica que essas partículas podem atuar na dispersão de espécies e na manutenção do equilíbrio do ecossistema.
Um estudo conduzido por uma equipe internacional formada por 36 especialistas — entre biólogos, físicos, químicos, engenheiros ambientais e meteorologistas — identificou, pela primeira vez, a presença de microrganismos vivos no nevoeiro que se forma sobre a Amazônia. As análises revelaram que gotículas suspensas no ar, a mais de 40 metros de altura, transportam organismos como a bactéria Serratia marcescens e o fungo Aspergillus niger, comuns no solo da floresta e fundamentais na decomposição de matéria orgânica.
Esses microrganismos desempenham papel essencial na reciclagem de nutrientes, contribuindo para o crescimento de novas plantas. Segundo o coordenador do estudo, o químico Ricardo Godoi, da Universidade Federal do Paraná, o nevoeiro atua como um meio de transporte, permitindo que essas formas de vida alcancem outras áreas da floresta e ampliem sua distribuição.
Embora já se soubesse da existência de microrganismos em nuvens e partículas suspensas no ar — conhecidas como aerossóis —, pouco se conhecia sobre sua presença em nevoeiros. Pesquisas anteriores haviam observado aumento da diversidade microbiana em ambientes com neblina, como regiões costeiras da África, mas não havia confirmação de que esses organismos estivessem vivos e aptos à reprodução nesse tipo de ambiente.
O novo estudo, publicado em fevereiro na revista científica Communications Earth and Environment, demonstrou que as gotículas de nevoeiro funcionam como uma espécie de abrigo natural. Elas protegem os microrganismos contra a radiação ultravioleta e evitam a desidratação, criando condições favoráveis para sua sobrevivência. Com isso, os pesquisadores passaram a considerar a neblina como um verdadeiro habitat microbiológico.
O interesse pelo tema surgiu há cerca de uma década, quando pesquisadores detectaram partículas biológicas em grande altitude na floresta amazônica, algo que inicialmente parecia improvável. A explicação começou a tomar forma após a observação direta da formação de nevoeiro sobre a floresta. Durante a madrugada, o ar úmido se resfria e forma gotículas; com o aquecimento ao amanhecer, correntes ascendentes elevam esse material acima da copa das árvores.
Para investigar o fenômeno, coletas foram realizadas entre 2021 e 2023 na torre do Observatório de Torre Alta da Amazônia, estrutura com mais de 300 metros de altura localizada em área preservada. Amostras de nevoeiro foram recolhidas durante a madrugada e analisadas posteriormente em laboratório.
Os resultados indicaram concentrações que variaram de milhares a dezenas de milhares de células por mililitro de água. Testes mostraram que muitas dessas células estavam metabolicamente ativas, com estruturas intactas, o que confirmou sua viabilidade. Cultivos realizados em laboratório permitiram identificar diversas espécies de bactérias e fungos presentes nas amostras.
Apesar das descobertas, ainda não há conclusões definitivas sobre a frequência ou a distribuição desses microrganismos ao longo do ano. Também não está totalmente claro o impacto direto deles no processo de decomposição, já que muitos desses organismos já existem naturalmente no solo da floresta.
Ainda assim, os pesquisadores apontam que o transporte via nevoeiro pode explicar a ampla distribuição de decompositores na Amazônia. Esse mecanismo contribuiria para a manutenção do ciclo de nutrientes em toda a floresta. Por outro lado, fatores como desmatamento, queimadas e mudanças climáticas — que reduzem a umidade e elevam a temperatura — podem comprometer a formação de nevoeiros, afetando esse processo natural.
A descoberta amplia o entendimento sobre os processos ecológicos da Amazônia e abre caminho para novas investigações. Estudos futuros devem aprofundar a análise genética dos microrganismos presentes no nevoeiro e examinar as propriedades das partículas envolvidas na formação dessas gotículas, buscando compreender melhor sua influência no equilíbrio do ecossistema.
Bruna Sebben / UFPR

