A Verdade Sob os Escombros: Novo Relatório Aponta Assassinato de JK pela Ditadura
Cinquenta anos após o trágico episódio na Rodovia Presidente Dutra, a história do Brasil parece estar prestes a ser reescrita. Um novo e robusto relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), revelado nesta sexta-feira (8), contesta a versão oficial de acidente automobilístico e afirma que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi morto pelo regime militar.
O documento, que possui mais de 5 mil páginas, é fruto de uma investigação minuciosa liderada pela historiadora Maria Cecília Adão. Embora o parecer ainda precise ser votado pelo colegiado para se tornar a posição oficial do Estado brasileiro, ele já representa a maior reviravolta no caso desde a redemocratização.
O Fim da “Versão do Acidente”?
Desde 1976, a narrativa oficial sustentava que o Chevrolet Opala de JK teria sido atingido por um ônibus da empresa Cometa durante uma ultrapassagem, perdendo o controle e colidindo com um caminhão. No entanto, o novo relatório apoia-se em evidências técnicas que ganharam força nos últimos anos:
- Perícia de 2019: O trabalho do engenheiro Sergio Ejzenberg foi fundamental. Sua análise contestou a dinâmica da colisão com o ônibus, sugerindo que o cenário do acidente pode ter sido forjado ou provocado de maneira distinta da relatada pelos militares.
- Contexto da Operação Condor: O relatório insere a morte de JK na rede de cooperação entre ditaduras do Cone Sul, que visava eliminar líderes políticos que pudessem capitanear o retorno à democracia.
- Divergência com a CNV: Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade havia mantido a tese de acidente. O novo documento da CEMDP, contudo, utiliza elementos que não foram devidamente explorados na época, reabrindo uma ferida histórica que muitos consideravam fechada.
O Longo Caminho para a Oficialização
Apesar do impacto da notícia, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) ressalta que o rito institucional ainda não foi concluído. O texto está em fase de análise pelos conselheiros e a votação — que exige maioria simples — só ocorrerá após o contato oficial com os familiares de Juscelino.
“As decisões sobre o reconhecimento de desaparecidos políticos seguem o regimento da CEMDP. O relatório em questão ainda não foi submetido à votação”, declarou o ministério em nota.
Por que isso importa hoje?
Juscelino Kubitschek, o “Presidente Bossa Nova”, foi o responsável pela construção de Brasília e por um período de acelerado otimismo econômico. Ter seus direitos cassados em 1964 e, possivelmente, sua vida ceifada em um atentado orquestrado pelo Estado, altera profundamente a compreensão sobre o nível de violência e controle exercido pela ditadura contra a oposição moderada.
Se aprovado, o relatório não apenas altera os livros de história, mas também garante o reconhecimento de JK como vítima oficial de perseguição política, encerrando décadas de incertezas para a família Kubitschek e para a memória política do Brasil.
Linha do Tempo: Do Asfalto à História
- 22 de agosto de 1976: JK morre em acidente na Via Dutra, em Resende (RJ).
- 1995: Criação da CEMDP no governo FHC.
- 2013-2014: Comissões estaduais sugerem assassinato; Comissão Nacional mantém tese de acidente.
- 2019: Laudo do MPF questiona a mecânica do acidente.
- Fevereiro de 2025: Governo Lula reabre oficialmente as investigações.
- Maio de 2026: Relatório de 5 mil páginas conclui que JK foi morto pela ditadura.

